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Luta, urgência e moradia

Exposição Coletiva

AYA
Yná kabe
Raissa 

Curadoria Lucena de Lucena

Via como um encanto uma casa nascer da própria terra, do"
mesmo barro em que, se lançássemos sementes, veríamos
brotar o alimento. Quantas vezes havia visto aquele ritual de
construir e desmanchar casas, e ainda me maravilhava ao ver se
."levantar as paredes que seriam nosso abrigo
Torto Arado, Itamar Vieira Junior –

 

Esse texto é para mães, avós, madrinhas, tias, primas e vizinhas que construíram e edificaram casas e moradas reais para que algumas de nós pudéssemos estar aqui hoje. As cito porque são suas histórias e ações que visito para compor exposições e que também revisito quando apresento aqui os trabalhos de AYA, Raissa e Yná, em Luta, Urgência e Moradia.

 

Então, me permita te guiar por essa exposição de grandes trabalhos, pelo início e pelo fim, que também é recomeço: a Barricada, de Raissa Studart. A fragilidade de uma tonelada perante a Luta dos corpos que tentam construir é o porquê dessa obra estar aqui. Durante a montagem, é impossível não sentir a luta física entre o corpo de quem ergue os materiais brutos de construção, como a terra vermelha e a corda seca de sisal, completamente levantados sem nenhuma máquina para dar apoio. Com centenas de tijolos costurados e moldados sobre paredes de sacos que foram enchidos à mão, o material normalmente pensado para paredes retas aqui é repensado em forma de curva, e a terra solta é estabilizada à base da força dos sacos que a limitam. Por isso, acredite, a forma dessa escultura está em constante movimento e só cessa sua dança quando a exposição é encerrada.

 

Adiante, atravessando a única porta aberta, chegamos à explosão de cores, formas  e texturas do trabalho de AYA, que também poderia ser a parede do quarto de bagunças onde meu pai empilha materiais que um dia podem ser úteis. Em uma visita ao ateliê da artista Valéria Pena-Costa, conversamos sobre acumular coisas e uma pergunta se repetiu: "vai que serve?". É tanta urgência que precisamos guardar, vai que alguma coisa serve? Vai que o saco serve? Vai que o resto de fio serve? Quando se tem pouco, fazer servir é urgente. Do meu lado, como curadora, me interessa o literal e alguns simbólicos: o madeirite do barraco que precisa ser erguido com urgência, a liguinha do dinheiro que ainda não chegou, o saco de laranja do caminhão que passou, a fiação que vem do gato, o arame farpado para manter o perigo fora. Há Urgência no abrigo do tempo, no alimento e na segurança. Por isso, a obra de AYA, com nome de código imenso, se faz presente.

 

Essa exposição já estava quase toda montada quando tive uma conversa com tio Chico, que me apresentou à ideia de furto famélico: pode existir legitimidade em furtar comida para sobreviver. E se subtrair comida para sobreviver pode ser legítimo, porque furtar materiais de Moradia também não seria? Afinal, habitação é direito assegurado pela Constituição Federal de 1988. Isso me trouxe imediatamente ao trabalho de Yná. Um grande tutorial de como construir sua própria casa com materiais roubados, operando micro-furtos, tijolo a tijolo. Portanto, tomar os materiais e levantar as paredes com as próprias mãos, pode ser viável. Além de apresentar alguns materiais e métodos para a construção, nos vídeos Yná traz tutoriais de construção e algumas observações de campos de obra para assinalar onde podemos buscá-los. De todo modo, ficam dicas do que fazer e como fazer para levantar suas paredes. 

Independente do como e de quais materiais,
que a luta urgente por moradia se torne passado.

Lucena de Lucena, Brasília, 2023

'Esse texto não é para os pares da arte, da academia ou do rolê. Para eles, deixo os de Eime Bell, Gizza Brito, Juliana Borini e Miranda Gaspar, que tanto fizeram, pensaram e pesquisaram para a existência do pensamento dessa exposição. Os escritos delas, tão importantes quanto esse que você tem em mãos, podem ser acessados com o celular pelos códigos no verso.

Galeria A Pilastra

Brasília - DF

12/07/2023 - 31/08/2023

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